segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Última vez.

Ana estava aflita, a dúvida em sua mente: Ligar ou não ligar? Já faziam seis meses, tudo pode ter mudado - aliás, tudo mudou -, sua vida sempre foi assim, uma mudança atrás da outra, desejada ou não. Mas ela tinha que ligar. Precisava tirar esse peso enorme que a impedia de seguir. No fim da tarde, decidiu ligar, exatamente às seis - o horário que ele já estava em casa, mas ainda não teria jantado -, afinal, já que ela não comeria mesmo, que eles compartilhassem ao menos a falta de apetite. Ligou, ouviu sua voz do outro lado da linha e gelou subitamente. As palavras todas presas na garganta. Ao ver que estavam para desligar pensando que era algum tipo de trote, decidiu falar, e assim o fez.

“Olha, eu sei que já se passaram seis meses, mas eles serviram para eu reunir toda a coragem que já tive em algum momento, para te ligar. E eu te peço desculpas por tê-lo deixado falando sozinho quando você se declarou para mim no nosso lugar secreto, mas isso foi preciso, não para eu perceber o quanto te amava - não, isso eu sempre soube - mas para você aprender que não deve me amar. Se você dissesse que me ama, eu começaria a ter esperanças e ilusões; passaria a lutar para tornar possível o impossível e me machucaria com o resultado desastroso. Permaneci calada por medo de que você passasse a sentir o mesmo - e foi exatamente o que você fez. Então, eu fui. Doeu demais, mas o fiz. Para manter intacto esse amor isento de decepções que seria causadas de nossos erros, até mesmo dos acertos. Na verdade, liguei apenas para você ter consciência de uma coisa: Eu também te amo. Amo você o suficiente para deixá-lo viver em paz, reprimindo o meu amor dentro desse coração que sempre te pertenceu. Adeus.”

Ela desligou antes de poder ouvir qualquer resposta, respirou fundo, e percebeu que o peso em seu corpo havia desaparecido. Estava curada. Ela poderia viver de novo.

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